Livro Pentagrama Mágico

12 de dezembro de 2009

de Eduardo Sisterolli Alencar


Capítulo I


Órfão desde os primórdios, já que meus pais me abandonaram em uma instituição, logo nos meus primeiros dias de vida, dediquei-me, invariavelmente, a um só objetivo: progredir socialmente, provando àqueles que me enjeitaram, o valor de seu pupilo desprezado.

Após anos de estudo e de labor obsessivo, consegui me tornar dono de uma pequena empresa financeira que, com o tempo, cresceu em demasia, transformando-se em um dos maiores bancos de meu país.

Talvez, devido ao rancor, pelo menoscabo que meus progenitores me dedicaram talvez, pela aversão que a frívola sociedade me causava, nunca fui dado a amizades e a solidão foi minha companheira habitual.

Poderia ter tudo dos meus fartos rendimentos, mas qualquer reconhecimento sincero, de um verdadeiro amigo, jamais obtive, tendo em vista que apenas o interesse pessoal movia os que, habitualmente, me rodearam. Nem mesmo o paradeiro das pessoas que me deixaram, pequenino, aos cuidados de estranhos, despertou-me interesse.

Os negócios aos quais me dediquei, integralmente, durante toda a existência, raramente movidos com lisura, e a ganância descabida, em aumentar meu capital, não me permitiram constituir família, nem deixar descendentes. Isso tudo me tornou uma pessoa rude e de difícil trato.

Atualmente, com meus sessenta anos, me sinto mais só do que nunca, cercado, como sempre, de companhias cobiçosas. Vejo tudo o que produzi com muita animosidade. A falta de entusiasmo me abarcou, de algum tempo para cá, impondo-me uma mudança urgente nas minhas diretrizes.

Resolvi, então, vender tudo que possuía, inclusive o banco, e passar o resto de meus dias, isolado, em algum lugar aprazível, onde pudesse dedicá-los a algo menos estafante, fugindo, por assim dizer, da convivência humana. Lembrei-me, durante meus pensamentos aleatórios, de uma pequena cidade do interior inglês, na qual havia estado, por motivo de negócios, chamada Bornester e da qual me recordo bem, por sua beleza e pela tranqüilidade e bucolismo rotineiros.

Quando lá estive, o traçado de suas ruas calmas e a bela arquitetura, com os toques rústicos das moradas, aparentemente confortáveis, juntamente com a paisagem farta de árvores e de pássaros canoros, me fascinaram. Decidi, portanto, mandar um serviçal, àquelas paragens, com o fim de investigar a possibilidade da compra de alguma propriedade.

Pouco tempo depois, meu enviado retornou, trazendo a boa notícia:

- Sr. Rockwood, encontrei uma linda construção que, a despeito de não ser tão ampla, é primorosa em seu acabamento e conta com uma localização privilegiada, afastada um pouco da região central. Está a venda por uma pechincha e, tenho certeza, vos agradará muitíssimo.

A boa nova soou como um alento para minha mente impaciente. Sem delongas, me dirigi ao pequeno centro urbano. Lá chegando, vi as minhas expectativas confirmadas: continuava o mesmo lugar tranqüilo e encantador, no qual eu poderia despender o restante de minha jornada monozóica.

Procurei, imediatamente, a sua empresa imobiliária, onde deveria contatar o responsável. Ao adentrar o estabelecimento, deparei-me com um sujeito alto, ruivo, imberbe, de costeletas fartas, que aparentava seus trinta e cinco anos e que me recepcionou com um entusiasmo não tão comum aos ingleses. Logo que me apresentei, Sr. Kimberly foi me pondo a par da situação:

- Excelente negócio ireis realizar, Sr. Rockwood. A residência, em questão, encontra-se em ótimo estado de conservação, embora não esteja habitada há uma década. Os filhos do proprietário sempre a mantiveram sob cuidados e a manutenção foi feita periodicamente. Pertenceu a um dos mais nobres vultos dessa cidade, um verdadeiro patrono, Dr. Liam Penley que foi, durante muito tempo, diretor de duas das maiores instituições de Bornester: a Faculdade de Medicina e o Sainte Madeleine Children Hospital. Há dez anos, se mudou para Paris, de onde dirige a Sociedade Internacional de Medicina, ocupando o cargo de presidente. Nossa urbe se orgulha de tê-lo como filho.

- Sr. Kimberly, deixemos de lado, mais comentários, e procedamos logo ao assunto; quando seria possível a avaliação, de minha parte, da propriedade. – interrompi, menos amistosamente, dado que a longa e dispensável exposição me havia, de certa forma, entediado.

- Imediatamente, Sr. Rockwood. Acompanhai-me, e a minha carruagem nos conduzirá até o local. – respondeu-me, imprimindo um aspecto mais formal à sua fala.

Tomamos a condução e deixamos os limites do aprazível aglomerado, onde pude me deliciar com o inefável visual, exuberante em seus predicados naturais. Embeveci-me com o sol no horizonte, iluminando os vales e as pequenas elevações daquela topografia tão formosa. Os pequenos animais eram facilmente localizados sobre a relva verde e os pássaros compunham uma sinfonia capaz de abrandar o mais embrutecido coração.

Aquilo tudo, enlevava-me, sobremaneira, atenuando a aspereza de meu espírito asselvajado. Esse estado de beatitude só foi interrompido quando avistei, bem próximo, uma lindíssima morada, com características de desabitada, que supus ser a que iria comprar. Um grande jardim, necessitado de cuidados, antecedia a construção principal. A casa, de um tamanho considerável, juntamente com a bela vista que tinha a sua frente, satisfazia todos os meus anseios. Para a minha surpresa, o cocheiro passou diretamente, sem adentrá-la.

A minha decepção foi tamanha, que não pude me conter e interpelei o corretor: - Que imponente residência é aquela pela qual acabamos de passar? Parecia-me desabitada e agradou-me muito. Por um momento, pensei que fosse ela o motivo de nossa jornada.

- Sinto muito, Sr. Rockwood, mas ela não é a que nos interessa. Coincidentemente, pertence também à família Penley, encontra-se igualmente abandonada há muitos anos, mas nunca esteve à venda. Infelizmente, ela não serviria aos vossos propósitos, porquanto nunca foi submetida a nenhuma manutenção e deve estar carecendo de uma grande reforma geral. – explicou.

- É uma pena! pois era realmente o que eu estava querendo – comentei desapontado.

A carruagem prosseguiu mais algumas milhas e, finalmente, chegou ao seu destino. Uma vivenda espaçosa e bem conservada mas, em nada comparável a que eu havia avistado, instantes atrás. Naquela hora, uma idéia me passou pela mente, muito habituada aos negócios. Em seguida a um breve exame do local, me dirigi ao corretor, solicitando uma reunião com o proprietário, o mais breve possível. Fui atendido, prontamente, em minha pretensão:

- O Sr. Igor Penley encontra-se em Bornester apenas para tratar da venda de sua propriedade. Vinde ao meu escritório, às duas horas da tarde, que lá estaremos, eu e ele, a aguardar-vos, para discutirmos os trâmites finais do negócio. – respondeu-me, sempre com a mesma atenção.

Retirei-me para a pequena pensão, na qual eu me instalara temporariamente e, ansiosamente, aguardei pela reunião. Às duas horas, em ponto, lá estava eu, novamente, na empresa de negócios imobiliários de Bornester. Encontrei o Sr. Kimberly já na companhia do Sr. Penley. À primeira impressão, Igor Penley se apresentava como um típico cidadão inglês, com o porte alto, o cavanhaque bem tratado e a sobriedade nos gestos e no modo de falar. Aparentava uns trinta anos de idade e estava trajado impecavelmente. O anfitrião se incumbiu de fazer as introduções:

- Sr. Rockwood, tenho o prazer de vos apresentar o Sr. Penley, o dono do imóvel que acabamos de visitar.

- É um prazer conhecer-vos, meu caro. Pois tratemos logo dos negócios que nos interessam e findemos o que aqui viemos fazer. – respondi, com minha objetividade usual.

Posteriormente a um breve cumprimento, o Sr. Penley se sentou e me olhou atentamente, esperando pela proposta. Continuei, após essa pausa:

- Me interessou bastante uma vivenda localizada algumas milhas antes da que colocastes à venda. Sr. Kimberly me informou que a mesma, apesar de desabitada, não estava sendo negociada, mas pertencia também à vossa família. Ela seria a ideal para que eu concretizasse os meus derradeiros desejos. Apesar do bom estado e da beleza da outra, essa me cativou em especial. Como o imóvel encontra-se sem moradores, há algum tempo, carece de uma boa reforma, que eu estaria disposto a custear. Proponho-vos a compra dos dois bens, em conjunto, sendo que, eu habitaria a residência que pertenceu a vossa família, apenas enquanto durarem as reformas daquela que mais me atraiu.

Ele ouviu o meu discurso em silêncio. Pensou um pouco e me respondeu:

- Sr. Rockwood, sinto não poder satisfazer os vossos anseios. Aquela habitação foi doada a meu pai pelo seu melhor amigo e colega, que desapareceu misteriosamente, há algumas décadas. Chamava-se Dr. Victor Olcott e exerceu sua profissão, durante muitos anos, na Faculdade de Medicina de Bornester, até que duas tragédias sucessivas o atingiram, findando no seu obscuro sumiço.

Desapontado com a negativa mas, ao mesmo tempo, seduzido pela fascinante história do lugar, não pude me conter e, interrompendo-o, indaguei:

- Que tragédias foram essas, meu caro?

Prosseguiu, então:

- Não sei relatar bem o que houve, na época em que tudo aconteceu, eu ainda nem havia nascido mas, depois disso tudo, a casa foi entregue a meu pai que a lacrou e, desde então, tem má fama pela região e os cidadãos supersticiosos daqui preferem evitar as suas proximidades, pois afirmam que alguma coisa sobrenatural emana daqueles muros.

As declarações estimularam, ainda mais, a minha vontade de adquiri-la, fazendo com que retrucasse:

- Não sou afeito a coisas sobrenaturais, nem mesmo acredito nelas e, sobretudo, fenômenos desse tipo, não me fazem medo. Continua de pé a minha proposta. Lembrai-vos que a casa precisa de uma boa reforma, com a qual eu arcaria, sem gerar ônus para os Penley.

Acuado pela minha insistência, finalizou:

- Tenta-me muito uma oferta como a vossa, mas terei que consultar primeiramente meu pai, que se encontra distante daqui, e que me deu ordens expressas, em tempos idos, para não dispor do bem.

Confiante em uma resposta positiva, concordei em esperar, ainda hospedado no pequeno albergue do vilarejo. No tempo em que lá fiquei, pus-me a conhecer as redondezas. Em uma dessas andanças, encontrei uma instituição denominada Sainte Madeleine Children Hospital, um misto de hospital e orfanato, dedicado somente às crianças, que fora dirigido pelo pai de Igor Penley e que, se me recordo bem, chamava-se Liam Penley. Evitei o contato, mais prolongado, com esse tipo de fundação, pois me fazia recordar dos traumas de minha infância. Em outra exploração, deparei-me com um vasto conjunto de prédios, que compunham a Faculdade de Medicina. Conversando com os residentes de Bornester, descobri que os dois estabelecimentos eram internacionalmente famosos, recebendo alunos e pacientes de todas as partes do mundo. Elas, em conjunto, eram as responsáveis pela maior parte do movimento do centro urbano, só não atrapalhando o seu sossego, em decorrência da distância, em que se encontravam, e das grandes alas de alojamentos, que se agregavam aos dois grandes estabelecimentos.

Decorridas duas semanas, fui contatado pelo Sr. Kimberly, que solicitou a minha presença, visto que o Sr. Penley já havia chegado a um consenso sobre o negócio. Encaminhei-me para lá e, assim que cheguei, foi ele mesmo quem primeiro se dirigiu a mim:

- Tenho boas notícias para vos dar, Sr. Rockwood. Ambas as propriedades são vossas. Podemos, por conseguinte, tratar das formalidades da venda.

A positividade da resposta fez-me parecer um novato no assunto de negócios e, só com muito esforço, consegui manter a sobriedade:

- Fico feliz pela aceitação da minha proposição, meu caro Sr. Penley. Passemos, então, à confecção das escrituras e o dinheiro vos será entregue imediatamente.

Procedemos, logo após, à conclusão da transação. Em poucos dias, estava de posse das duas herdades. Mais do que depressa, me mudei para a antiga residência dos Penley, e tratei de contatar operários para reformar a outra. A habitação, quando recuperada, seria a minha morada definitiva. O mestre de obras, que arranjei, não pôde encontrar funcionários, para realização dos serviços de reparo, na cidade; teve que contratá-los nos vilarejos próximos, uma vez que a crença infundada dos locais, insistia em taxar a região de mal assombrada.

Durante a reforma, que durou quase dois meses, era comum que alguns dos operários se queixassem de mal-estar constante, ou que insistissem na assertiva de que ouviam barulhos estranhos pelos corredores, sem que a origem fosse detectada. Eu ria de suas atitudes, fazendo pouco caso, e instigava-os ao trabalho.

O esforço valeu muito a pena, a beleza dos jardins e da casa, em seguida ao labor dos construtores, superou as minhas expectativas. O mobiliário novo realçou cada detalhe do lugar. Finalizada a obra, realizei a minha mudança de domicílio, transferindo tudo o que me pertencia, para o meu novo lar.

Mudei-me logo cedo e passei um dia maravilhoso. Era tudo o que eu esperava para os meus últimos anos, pois a paisagem prodigiosa me proporcionava um grande bem estar. Para me servir, contratei um número mínimo de serviçais: uma arrumadeira que cuidaria da limpeza e um cozinheiro, que faria, também, as vezes de mordomo, me servindo as refeições. Nas minhas metas, para o meu fim de vida, incluía-se um isolamento quase total, que se aproximava da clausura. A convivência com a sociedade, que eu taxava de fútil e torpe, me tornara amargo e egoísta. A riqueza que consegui, seria sempre minha e comigo desapareceria; ninguém nesse mundo, mereceria desfrutar de algo que se deveu somente ao meu completo e solitário esforço.

Passei um dia benfazejo e, chegada a noite, recolhi-me aos meus aposentos privados e logo adormeci, depois de uma breve leitura de uma brochura sobre assuntos triviais. Tão logo o sono chegou, algo desagradável começou a se passar comigo. Um sonho de características muito reais me envolveu. A casa, antes limpíssima, se transmutou em um pântano pútrido e nauseabundo, habitado por criaturas bizarras e de aspecto repugnante. Uma névoa basca e um odor desagradável feriam os meus sentidos, sufocando-me. De repente, em meio a essa cena horrípila, surgiu uma figura de maiores proporções e de aparência obumbrada; vestia um manto negro e tinha as feições encobertas por um capuz. Transmitia uma grande tristeza, não obstante não me ser possível divisar seus traços faciais. Com um gesto, me pediu para seguí-la. Acompanhei-a, então, com meu corpo de sonho, malgrado o receio que a situação me infundia. Descemos até o nível inferior da morada, andando sempre por aquele ambiente limoso. A uma certa altura, no final do corredor, que conduzia à sala de jantar, ela parou e apontou, com o dedo, para uma parte da parede. Posteriormente, atravessou-a e não pude mais acolitá-la, em razão do intenso pavor. Depois daquilo, os teratogênicos seres, que me cercavam, se aproximaram mais e passaram a me enlaçar, num incômodo amplexo. Nessa hora, não mais suportei e fiz de tudo para acordar.

Despertei sobressaltado, em resposta à minha vontade desesperada. Escotomas e miríades de luzes encandeantes atrapalharam a minha visão inicial, mesmo depois da vigília. Transcorridos alguns minutos, uma calma relativa retornou, mas não mais consegui dormir. A insônia, devido à tensão que o fato me causou, foi minha companheira pelo resto da noite.

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12 de dezembro de 2009

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