Livro Pentagrama Mágico

12 de dezembro de 2009

de Eduardo Sisterolli Alencar


Capítulo II


Pela manhã, após passar pela noite mal dormida, desci até a sala de refeições, para o desjejum. Qual não foi o meu sobressalto, quando encontrei meus dois serviçais, a me esperar, com um terror intenso, estampado em suas feições. A arrumadeira foi a primeira a me interpelar:

- Sr. Rockwood, sou obrigada a vos falar, pela força das circunstâncias. Nessa noite, tive pesadelos horríveis, de uma realidade marcante. Não consegui dormir um só segundo, depois de sonhos aterrorizantes, nos quais seres infernais me perseguiam. O pior, foi que o mordomo passou pela mesma indigesta situação. Acredito que essa casa deve ser realmente amaldiçoada, como me disseram.

Perplexo com as declarações, gastei alguns segundos concatenando as idéias. Respondi, em seguida, tentando manter, ao máximo, a calma:

- Não se assustem por tão pouco, tudo o que aconteceu, deve ter sido, com certeza, uma coincidência. A mudança abrupta de ambiente gera, freqüentemente, reações psicológicas adversas e inesperadas. Eu, por exemplo, dormi muito bem e nada tenho a reclamar desse agradável lugar. Tenho certeza de que vocês estão passando por um período de adaptação e que hoje terão um excelente período de sono. Continuem o trabalho, portanto. Não vão ser acontecimentos tolos como esses que atrapalharão o nosso bem estar.

Tive que mentir, para garantir a tranqüilidade dos que me serviam mas, mesmo assim, pude perceber que o medo não se dissipou com o meu discurso. Eu, propriamente, estava impressionado com a simultaneidade dos fatos. Tentei, por conseguinte, convencer a mim mesmo de que se tratava de uma peça do destino, que não mais se repetiria.

O meu dia não foi tão prazeroso como o anterior, provavelmente, em conseqüência da recente insônia. Mas, a despeito disso, o lugar continuava me cativando e, cada vez mais, reforçava-se a vontade de ali permanecer definitivamente.

O crepúsculo chegou, e com ele um certo receio, reforçado por leves calafrios, que insistiam em se manifestar. Dirigi-me aos meus aposentos e, de novo, adormeci. Infelizmente, a mesma situação se repetiu: durante o sono, o mesmo enlapado espectro me fez descer as escadas e, logo depois, apontou na direção de uma parte da parede do corredor, por onde, logo em seguida, ele atravessou. Houve uma diferença marcante dessa vez; os deformes seres, que se encontravam também presentes, não mais se aproximaram de mim. A despeito da grande tensão que o momento me causava, uma curiosidade maior, coadjuvada por um desejo inescrutável de seguir o fantasma, me fez acompanhá-lo, transpondo o mesmo obstáculo com meu vaporoso corpo. No início, a barreira me ofereceu alguma resistência mas, com algum esforço, consegui rompê-la. Espantado, deparei-me com uma curta escada que dava acesso a um cômodo secreto. Relutei muito em prosseguir, pois o caminho me despertou, intuitivamente, uma apreensão intensa. No cômodo, o odor engulhoso e a atmosfera sufocante pioraram bastante. Comecei a descer os degraus, até que cheguei a uma sala. Símbolos luminosos, parecidos com as letras do alfabeto hebreu, circundavam todo o recinto e, ao centro, via-se uma grande estrela de cinco pontas, sendo que nela denotava-se uma deprimente cor negro-purpúrea. Em um dos lados, percebi uma mesa e, sentado em uma cadeira, logo atrás dela, a entidade que eu vinha seguindo. Ela manipulava algumas folhas de papel e parecia oferecê-las a mim. Subitamente, uma gélida brisa me fez tremer e um pavor, que jamais sentira, tomou conta do meu espírito que, àquela altura, beirava o descontrole. Antes não o tivesse feito mas, num ímpeto natural, virei-me para trás e deparei-me com a criatura mais hórrida que minha pobre mente jamais poderia imaginar. Um monstro com uma veste negra a cobrir-lhe todo o corpo deformado; por entre brechas de pano, podia-se ver que não possuía membros humanos e sim garras, parecidas com a de alguns insetos. As feições alteradas pareciam ter sido estragadas por graves queimaduras. A malícia e a maldade que transmitia pareciam infinitas. Não pude encarar aquilo, em razão do medo e da repugnância. De repente, essa aberração se aproximou e, agressivamente, abriu a boca, mostrando os dentes pontiagudos; em um só movimento, levantou uma das garras superiores e, num lance rápido, lacerou o meu corpo de sonho, à altura do peito.

Acordei instantaneamente em meu leito; as mesmas luzes, que me perturbaram na noite anterior, novamente se fizeram presentes. Mas, concomitantemente, uma dor mediastinal intensa me dificultava a respiração. Imediatamente, retirei a camisa, mas não pude notar nenhuma lesão. Somente as referidas pontadas lancinantes a me torturarem.

Aquilo havia sido demais para mim, essa casa deveria ser mesmo maldita. Como suportar noites seguidas com pesadelos semelhantes? Deveria haver uma explicação plausível. Não pude mais dormir, a ansiedade e o incômodo torácico não me permitiram.

Quando amanheceu, desci novamente para o desjejum mas, para a minha decepção, não mais encontrei os meus serviçais. Fui até seus aposentos e percebi que haviam me deixado. Logo entendi que, mais uma vez, sonhos semelhantes os haviam atormentado.

Sozinho, vi-me diante de uma única opção: a de mudar-me para a outra propriedade, a mesma que havia sido habitada pelos Penley. Pelo menos lá, a caseira poderia suprir minhas primeiras necessidades, enquanto eu procurasse novos criados. Passei um dia inquietante; a frustração de ver meus planos modificados por aqueles acontecimentos, faziam meu ser, desacostumado a derrotas, clamar por uma solução, asseguradora que minhas metas originais não se alterassem.

De tarde, procedi a uma longa caminhada, tentando amainar a inusitada sensação que os inexplicáveis fatos haviam me causado. O visual natural, que também era belo, não se comparava ao que fazia frente à antiga morada dos Olcott. À medida que a tarde findava e que a noite dava os seus primeiros sinais, uma determinação compelia-me a pensar incessantemente em um meio de me estabelecer na residência que era o alvo dos meus anseios.

Com o escurecer, me recolhi aos aposentos e adormeci rapidamente, em razão das horas de sono perdidas nas duas noites passadas, que geraram em mim uma forte fadiga. Mas uma vez, surpreso, nesse plano onírico, surgiu à minha frente, a figura do ser encapuzado, que me fizera seguí-lo, nas duas ocasiões anteriores. O sonho tinha características menos realistas mas, mesmo assim, transmitia-me uma profunda impressão. A grande tristeza da criatura inspirava-me uma notável compaixão e uma vontade de auxiliá-la, de algum modo. Decorrido um curto minuto, no qual me vi diante dessa figura tão intrigante, a forma se movimentou e retirou o capuz que lhe cobria as feições. Um rosto embrutecido, marcado por profundas cicatrizes, foi o que consegui divisar. Apesar de seu aspecto deplorável e, por mais incrível que me parecesse, simpatizei-me, de alguma maneira, com ele. Acordei logo depois. Ao contrário das outras noites, um sono reconfortante se seguiu e fez-me recuperar as energias. Descansado, decidi desvendar o mistério que envolvia aquela construção. Logo de manhã, após um rápido desjejum, encaminhei-me para lá, munido de alguns apetrechos.

Assim que cheguei, dirigi-me ao seu interior e, com um gesto determinado, apossei-me de uma picareta correndo até o corredor e desferindo vários golpes na parede, no lugar exato por onde o espectro e eu havíamos transposto.

Pude observar, enquanto os tijolos eram derrubados, que realmente existia a escada, a qual eu havia visto, durante minhas transcendentes jornadas, e que esta conduzia ao mesmo cômodo secreto, que já conhecera durante o sono. Com algum esforço, consegui abrir uma brecha, suficiente para me permitir a passagem. Nesse ínterim, um desagradável cheiro emanou do recinto, fazendo com que um certo entorpecimento tomasse conta dos meus sentidos, e me desorientasse por alguns segundos.

Mesmo com um grande temor, e com a dor no peito ainda a me fustigar, estava resolvido a descobrir a causa daqueles sonhos aflitivos; desci, portanto, os degraus, até me postar no centro da sala. Pude notar a estrela de cinco pontas, todavia dela não emanava mais a cor negra. Também não pude perceber, no solo e nas paredes, as letras luminosas do alfabeto hebreu. Lembrei–me da mesa, atrás da qual se sentara o vulto sobrenatural. Virei-me para a sua localização e a percebi no mesmo lugar. Para meu arrebatamento, um esqueleto humano completo debruçava-se sobre ela. Sua mão empunhava uma caneta empoeirada e repousava sobre um calhamaço de papéis, situado num canto do móvel.

Afastei um pouco, a parte cárpica do esqueleto, e me apossei dos escritos. Quando comecei a lê-los, não pude mais parar. Eis o que continham:

“ Prisioneiro desse claustro, que eu próprio criei, sinto-me forçado, nesses que são os meus últimos dias, a deixar um relato dos eventos que me trouxeram a esse triste ponto.

Por erros crassos de avaliação, priorizei sempre a cobiça e o cultivo da exclusiva vantagem pessoal. O mal que causei aos que me circundavam e a mim mesmo, ocasionou muita dor e um torvelinho de acontecimentos que, em seqüência, desgraçaram-me. A minha única esperança, era de que não existisse vida, após deixar esse corpo de carne, para que, o silêncio total, cessasse a minha tortura moral e, com o passar do tempo, os que ficassem, esquecessem quem fui, ou o que fiz. Mas, mesmo eu, que sempre fui ateu, sinto-me incrédulo nessa possibilidade, pois esses terríveis seres etéricos que me cercam, confirmam o contrário.

Em minha arrogância, teimei em trilhar o caminho errado, sem saber que estava sendo manipulado por esses espíritos malignos, antes imperceptíveis, mas que agora se tornaram reais aos meus sentidos e me acompanham por onde quer que eu vá.

Irresponsavelmente, adentrei um laboratório que não conhecia e manipulei, simiescamente, forças perigosas, as quais me colocaram em contato com esse mundo infernal. Tive que, compulsoriamente, deixar os que me eram caros, a fim de não feri-los e trancafiar-me aqui, nesse cubículo, esperando a morte.

Os poderes malignos, que adquiri, permitem-me ver os fatos pretéritos em uma outra dimensão, como se deles não houvesse participado. Em contrapartida, angariei a companhia eterna desses enlaivados entes abissais.

Sei que morrerei em poucos dias, mas não sem antes deixar uma narrativa do que se sucedeu, no intuito de prevenir os incautos, que se acham superiores às leis inexoráveis da natureza. As mesmas leis que me fazem passar por tudo aquilo que desejei e que realizei de mal. Nesse meu inimaginável sofrimento final, com todas essas criaturas bisonhas a vociferar impropérios em meus ouvidos, tento criar alguma coisa boa, dado que em vida, só o mal produzi.

Findando a leitura desses escritos, quem quer que o faça, deixe essa casa, que antes era bela e abençoada, e que eu, com meu toque pernicioso, transformei em um charco pestilento, um genuíno ínfero na terra, que nem a passagem de longas décadas poderá sanear.

Como disse, os poderes a mim conferidos, me permitem ver os acontecimentos que se sucederam, como se deles não houvesse participado, e interpretar as verdadeiras intenções dos que neles tomaram parte. Agora percebo, que só de mim partiram as más ações, e que meus inimigos existiram somente na minha mordaz imaginação. Por isso mesmo, exporei o ocorrido, me postando como um observador, pois se torna mais fácil suportar as dores que as reminiscências me causam.

Perdoe-me a Grande Fraternidade da Tríplice Aliança, da qual um dia fiz parte, e que Deus me ajude a suportar esse tormento, e a terminar essa história que começo a relatar:”

No entusiasmo do momento, esqueci-me de onde estava. Uma intensa cefaléia, desencadeada pelas emanações do lugar, me fez sair rapidamente de lá, procurando um ambiente mais apropriado para continuar a leitura. Levei comigo os escritos para a antiga morada dos Penley, que agora me pertencia, e lá continuei o exame daqueles papéis.

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12 de dezembro de 2009

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